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Relato:trilha da Praia de Fora

      A trilha da praia de Fora (ou trilha da Ponta da Espia) inicia-se na praia da Enseada e dá acesso a duas prainhas selvagens: praia de Fora e praia de Xandra. Antigamente era possível prosseguir após essa última, e passando por um condomínio, chegar à praia de Toninhas, porém benfeitorias recentes nesse condomínio impedem a passagem e converteram o que era uma travessia numa trilha de bate e volta.

       A caminhada começa na praia da Enseada, na verdade sai do asfalto na altura de Perequê Mirim, pouco antes, e segui pela primeira travessa que encontrei rumo à praia homônima, que não conhecia, apenas para remediar meu desconhecimento. A praia é pequena e hospeda uma marina. Segui então para a esquerda, passei por uma pequena ponte sobre um riacho, e tomei a rua que sai do extremo esquerdo da praia. Rapidamente ela contorna um morro e desemboca no canto direito da praia da Enseada, maior e bem mais freqüentada. Atravessei então todo a praia até seu canto esquerdo, passando por alguns barzinhos e recebendo os tradicionais olhares esgazeados que uma pessoa totalmente vestida e calçada de botas desperta na população de banhistas.

      Chegando ao canto esquerdo, tomei a estradinha que dali sai e vai margeando a encosta a esquerda. Passo por algumas casas e a estrada vira uma trilha. Em pouco tempo a trilha desce até a areia e passo por um trecho estreito de areia bem rente ao mar. Logo a trilha se afasta do mar e passo por uma porteira, atravessando duas ou três propriedades. A passagem parece ser franca e apenas cumprimentei os moradores enquanto passava.

       A trilha vai seguindo pela mata, subindo lentamente, e apenas cruzando um ou outro riacho onde a funda grota formada pelo curso d’água às vezes obriga a um curto salto. Não demora muito e chego ao ponto mais alto da caminhada, a partir daí a trilha começa a descer e se torna mais úmida e escorregadia. Encontro então uma bifurcação. Tomo a direita e a descida se torna ainda mais íngreme e escorregadia. Um ou outro galho caído obriga-me a abaixar para ultrapassá-lo. Sem grandes dificuldades chego a um ponto onde uma corda foi posta para facilitar a descida da última canaleta enlameada que leva direto a praia de Fora. Com cuidado desço me segurando a corda, mas o trecho que parecia difícil revela-se surpreendentemente tranqüilo.

       Enfim alcanço as areias da pequena praia de Fora. Salto um riacho e ando os poucos metros de praia até uma sombra sob um das poucas arvores. No mar alguns poucos surfistas aproveitam esse recanto escondido. Após um descanso à sombra, resolvo subi nas lajes à direita da praia. Percebo que é possível seguir pelo costão e avanço por ele rumo a ponta da Espia, ainda mais à direita. A frente avista-se a ilha Anchieta cuja ponta norte quase toca a ponta da Espia formando um estreito canal. Mas após avançar um pouco pelo costão chego a um trecho que considero arriscado e paro por ali, voltando à praia. No entanto o passeio foi interessante e o panorama que tive do costão é bastante bonito.

        Da praia, volto pela trilha de vinda até a bifurcação e daí tomo o ramo esquerdo. A trilha segue pela mata, sem subir nem descer muito, até que a mata de abre e a trilha passa a descer pelo aberto com bonita visão da praia abaixo, do costão adiante dela e da encosta verdejante acima deles, em meio a qual despontam algumas casas. A trilha volta a entrar na mata, sempre descendo e logo caio na areia da praia de Xandra. Um pouco maior que a outra, com areia mais fofa e totalmente deserta. Seguindo pela areia, encontro um riacho muito largo para saltar e tenho de subi-lo alguns metros até achar um ponto onde grandes rochas permitem saltá-lo comodamente.

       Seguindo pela areia, antes de chegar a um grupo de grandes blocos rochosos que ocupam o canto esquerdo da praia, tomo uma trilha que sobe rapidamente, mas logo nivela e segue bordejando a encosta. Não demora e a trilha parece se apagar. Desço um degrau rochoso e encontro o que parece a continuação, larga avenida entre bananeiras. Chegando a uma cerca, junto a qual uma enferrujada placa indica propriedade de fulano de tal. Ali a trilha parece se bifurcar. Um ramo desce, mas acaba em um trecho de costão. Até tentei avançar pelo costão de blocos rochosos, mas o nível crescente de dificuldade me dissuadiu de prosseguir. Voltei e tomei o ramo subindo. Após subir um pouco a trilha volta a nivelar e segue bordejando, aparentemente na direção pretendida, apenas para mais a frente esbarrar numa cerca cerrada, onde uma placa informa “trilha fechada, volte por onde veio”.

       Claro que não seria dissuadido por tão pouco, com dificuldade a contornei, saindo da trilha, desci a íngreme encosta escorregadia, subindo de volta a trilha logo após a cerca. Pensei ter burlado a proibição. Ledo engano! Avançando pela trilha agora visivelmente tomada pelo mato, logo cheguei a nova cerca, esta agora intransponível! Atrás da cerca temos já uma rua asfaltada do tal condomínio. Em 2004 quando andei pela primeira vez por ali, estas cercas não existiam e passava-se livremente para a rua, seguindo por ela até a praia de Toninhas. Pelo visto os abonados donos dos casebres desse condomínio, que certamente devem visitar bissextamente o local, acharam necessário cercar melhor suas propriedades, acabando de vez com a curta travessia que existia por ali entre as praias da Enseada e Toninhas! Paciência, o jeito era voltar por onde viera, o que me tomou pouco mais de uma hora. Dessa maneira se visitar o local não perca tempo prosseguindo após a praia de Xandra. Curta a praia e volte daí, pois adiante não vai encontrar mais nada de interesse, a menos que querendo emular São Tomé queira conferir as cercas fechando a passagem.