Arquivo da tag: caminho da luz

Caminho da Luz

 Quem aguentar ler esse relato inteiro já pode fazer o caminho da luz,
escreve-lo me cansou mais que os 200 kms do caminho.

1.Dia Tombos – Catuné ( 24.7 kms )

   Decidido a fazer o caminho da luz, à pé, parti dia 27, às 18:30, rumo a
Carangola ( a passagem foi R$ 79,50 ).A viagem foi sem incidentes, e a única
coisa que me incomodou foi o ar condicionado no máximo, que me fez passar
frio a viagem toda. Cheguei a Carangola pelas 7:30 do dia 28. Verifiquei que
o próximo ônibus para Tombos, ínicio do caminho, saia às 9:00. A empresa é a
Real, Custa R$ 4,00 e pouco. O ônibus vai para Itaperuna/RJ, sendo Tombos a
primeira parada e última cidade antes da divisa do RJ.
   No tempo de espera dei uma volta pela cidade. Realmente, como já dissera
Mestre Douglas, a cidade não é lá muito bonita. Fica encaixada num vale
estreito, com morros erguendo-se abruptamente nas laterais, sobre os quais o
povo de baixa renda ergue suas casas. Parece um pouco a favela da rocinha !
Passei pela praça da matriz, onde fica o hotel Gran Palace, à direita, e na
primeira travessa, à esquerda encontrei uma padoca simpática onde tomei um
café da manhã. Nesta mesma rua, mais a frente, ficam as agências do Itaú,
Bradesco e CEF. Na mesma rua, mas seguindo à direita há o BB.
   Tomei o café e voltei a rodoviária, que é a antiga estação ferroviária de
passageiros da cidade. Seguindo um pouco mais pelo antigo traçado da
ferrovia, encontra-se outra antiga estação, de cargas, que agora é um centro
de artesãos.
   A viagem até Tombos é rápida, pouco mais de meia hora. Descendo na
rodoviária, também antiga estação ferroviária, logo à direita, ve-se o
Colonial Palace Hotel, e logo ao lado o centenário Hotel Serpa. No Serpa,
faz-se a inscrição e pega-se a credencial de peregrino. A credencial, o
livrinho Caminho da Luz  e uma camiseta saem por R$ 40,00. Na estação tem um
pequeno museu que não tive tempo de visitar.
   Deixei a mochila no Serpa e fui conhecer a cachoeira de Tombos. Tomei à
esquerda, passando pela estação, e seguindo em frente pela rua principal,
contornando uma igreja em obras e pegando a primeira à direita, e ao final a
trilha à esquerda. Descendo até a base, entrando no terreno da pequena
hidrelétrica. A cachoeira não me impressionou muito, talvez porque a água
estava barrenta devido as chuvas.
    Subi de volta ao Serpa, peguei a mochila e pernas para que te quero. Já
eram 11:00 e tinha mais 23 km para cumprir no dia. Seguindo em frente, na
pracinha tomei à esquerda, passando ao lado da prefeitura e sempre seguindo
as setas amarelas, logo sai da cidade e entrei na estrada de terra, ou
melhor , de lama.
     Depois de 8km de estrada, passamos pela fazenda Oliveira, à esquerda,
ela é de 1845, mais a conservação deixa a desejar, de qualquer forma parece
manter as linhas básicas de uma construção da época, em Taipa de pilão.
     Mas 1 km e entramos à esquerda, numa estradinha menor, e ai a lama
tomou conta, parece que entramos pelo caminho da Lama, não da luz. Passa-se
por trechos alternados de mata e pasto, nos de mata o ruido de Bugios se faz
ouvir.
     Pelo hm 13 passamos pela casa da Dona Francisca, onde não parei dado o
avançado da hora e a chuva que começou a cair. Segui mais alguns
quilometros, pelo pasto, sempre subindo, agora numa trilha, por onde a água
escorria e formava lamaçais nos pontos mais planos.
     No Km 20, onde na grande árvore, o caminho se bifurca, para os
ciclistas, há uma estrada à direita, para os caminhantes, a antiga trilha de
romaria, à esquerda.Nesse ponto a chuva voltou a me castigar.
     Seguindo até uma baixada, há uma placa, e um porteirinha, à direita, e
atrás um matagal, mais o caminho é ai mesmo, subindo pela encosta de pasto,
contornado pedras até o alto, após passar por doi ou três quebra-corpos e
contornar um cafezal, a trilha quebra para a esquerda e segue bordejando a
encosta, até desembocar de novo numa estradinha. Tomando a mesma, subindo
mais um pouco chega-se a um cruzeiro, com uma bifurcação. Á esquerda sobe-se
para a gruta, uma subidinha de 500 metros, mas muito ingreme e escorregadia.
Á direita a estrada desce para Catuné.
      Subi a Gruta, que é bem ampla, com um altar de madeira no fundo.
Sentei para lanchar e tomar água. Lá fora a chuva voltou mais forte. Esperei
uma hora e 15 na gruta,mas a chuva não parava, então resolvi prosseguir
assim mesmo. Logo de cara tomei um tombo na descida, que é muito
escorregadia, desci até o cruzeiro e andei mais 2 km e pouco. Cheguei a
Catuné quase 18:00, todo molhado e enlameado.
      Seguindo as informações de Mestre Douglas, procurei a dona Rosa, que
não quis me receber, ligou não sei para quem, e disse que eu devia me
dirigir a casa de dona Lourdes para onde havia sido designado. Parece que há
um esquema de rodízio na hospedagem em Catuné, cada dia uma pessoa recebe os
caminhantes, hoje era dona Lourdes.
      Subi alguns metros de volta e tomei a ruela á direita, com o auxílio
dos moradores, sempre solícitos, encontrei a casa, bati, bati, e bati e
ninguem atendia. Esperei um bocado na chuva até que me atenderam e fizeram
entrar. A casa é simples, mas a hospitalidade de dona Lourdes é cativante.
Chegou a tirar o chinelo do próprio pé e me dar, para que eu não
pegasse “friagem”. Fui tomar um banho quente, tirando as roupas molhadas e
as botas encharcadas. Depois comi um jantar ótimo, confesso que com a fome
que eu estava qualquer coisa era ótimo.
      Depois de banhado e comido, conheci os demais hóspedes: Homero, de
João Pessoa, Márcia de São Paulo, o casal Hélio e Lúcia de Joinville e
Juliano, também de Joinville. Todos muito simpáticos, mas meio
estremunhados, com cara deque ia desistir ai mesmo da caminhada. Dormimos
cedo, preparando-nos para outro dia de lama e chuva no dia seguinte.

     2. Dia  Catuné – Pedra Dourada ( 23.25 kms )

     Parti pelas 7:00 de Catuné. A chuva tinha parado. Homero e Márcia
partiram na frente. Hélio e Lúcia partiram depois de mim. Juliano decidiu ir
de carro até Pedra Dourada.
     A última recomendação de Dona Lourdes foi para que eu me hospedasse na
Dona Ana em Pedra Dourada. Agora há outra opção lá, um hotel que foi
inaugurado a uns 6 meses atrás.
     Em 30 minutos passei pelo balneário da igrejinha, que parece que já foi
um lugar legal para tomar um banho de rio,mas que está meio detonado. De
qualquer forma tem um telhado cobrindo um piso de cimento, que poderia
servir como ponto de bivaque classe Jorge ( custo zero ). Mais uns 2 km e
começa a subido do Lombo de Burro. Prestei bem atenção neste trecho para não
cometer o mesmo erro de Mestre Douglas. Porém não consegui perceber onde se
poderia errar, estava tudo bem sinalizado com as setas amarelas. No alto da
subida, seguimos por um trecho plano, onde há à direita um casa de pau-a-
pique semi-desmoronada. Mas um pouco e começa a descida para Água Santa.
Água Santa é um minúsculo povoado. Descancei um pouco na pracinha,há uma
pequena padaria e uma igrejinha muito bonitinha apesar de mal consevada.
    Seguindo em frente, após passar um ponte sobre um riacho, a placa indica
que o caminho segue à direita, descendo, mas na verdade ali é o caminho até
a fonte da água santa. O caminho segue em frente. Sem notar isso desci à
direita e prossegui à esquerda na bifurcação abaixo. Seguindo mais um pouco
encontrei Homero e Márcia que vinham voltando, e me esclareceram que por ali
só se chegava a fonte. Prossegui até a fonte, por uma subida um pouco
escorregadia, passando por duas porteiras. Na fonte tomei uns goles da água,
que dizem ser milagrosa, e descansei um instante. Voltei pelo mesmo caminho,
tendo, enquanto voltava, uma bonita visão da vila no fundo do vale.
    De volta a Água santa, prossegui pelo caminho, agora à direita, e
iniciei uma longa subida. Pelo 12:00 parei e sentei numa pedra a beira do
caminho para lanchar. Eis que chega um gol branco, de onde sai Juliano e
mais duas caminhantes: Andreia e Júlia. Após 15 minutos de lanche e conversa
o gol prosseguiu para Pedra Dourada levando Juliano. Voltei a caminhar e
logo deixei para trás as duas, que estavam andando de havaianas. Devia ser
para captar melhor as energias telúricas do caminho. O fato é que a partir
dai elas ficaram conhecidas como: “As telúricas”.
    Mais alguns kms praticamente planos,com alguns pequenos sobes e desces,e
já víamos Pedra Dourada ao longe. Começou então a longa descida para Pedra
Dourada. Alcançando o fundo do vale,há uma cachoeira com acesso  à esquerda,
mais um trechinho plano e alcanço Hélio e Lúcia. Eles não haviam descido a
fonte e por isso me ultrapassaram sem que eu notasse. Chegamos juntos a
pracinha de Pedra Dourada, após passar pelo hotel à esquerda.
    A pousada de Dona Ana fica do outro lado da praça, e tem uma grande
placa na frente. A casa da Dona Ana é bem pequena, mas atrás, se ergue um
enorme edifício, ainda em amliação segundo Dona Ana, com um sem número de
quartos. Tendo sido levado ao meu quarto por Dona Ana, tomei um banho e fui
relaxar um pouco, lendo meu livro e cochilando um pouco. Durante o dia só
tivemos dois pequenos períodos de garoa, mas após chegarmos a pousada caiu
um tremenda chuva que prosseguiu pelo resto da tarde e entrou pela noite.
    Devido a chuva não me animei em circular pela cidade, jantei na Dona Ana
e fui dormir cedo.

    3. Dia  Pedra Dourada-Faria Lemos ( 25.2 kms )

    Partimos todos juntos pelas 7:00, menos o Homero que decidiu ir de carro
sob a alegação de que tinha passado a noite com febre e não se sentia bem.
outras versões dão conta de que algumas garrafas de vinho entornadas na
noite podem ter alguma coisa a ver com sua desistência.
    Antes de sairmos, dona Ana leu um trecho da bíblia como faz
tradicionalmente.
    Assim que saimos da cidade e termina o calçamento, começa uma subida,
como de costume bem embarreada. A subida acaba cerca de 3,5 km depois, temos
então vista da pedra dourada, paredão rochoso de cor clara e coberto de
ranhuras à esquerda, dizem que com o sol incidindo sobre ele toma um tom
dourado. Neste dia não só não tinha sol,como as nuvens encobriam-na
parcialmente. Nesta região há um reflorestamento. O caminhado prossegue mais
ou menos plana. Pelo km 8,passa-se pela pedra do Lagarto, à esquerda, bloco
rochoso com alguns metros, com forma que lembra ligeiramente um lagarto. A
partir dai passa-se por diversas cachoeiras de todos os tamanhos. Pelo km
11, começa mais uma descida e então avista-se a mais bonita delas, a
cachoeira Surpresa. Juliano e Márcia já estavam na dianteira e eu resolvi
descer até a base da cachoeira Surpresa, uns 200 metros à esquerda, por uma
estradinha. Hélio e Lúcia que não desceram, me ultrapassaram então.
    Na base da Cachoeira há um rancho semi-destruido, parece que o local já
foi mais frequentado. Comi um lanche e tome uns goles de água, enquanto
admirava a cachoeira. Voltando ao caminho, segue-se margeando o mesmo rio da
cachoeira surpresa, que agora segue, ora formando novas quedas e
corredeiras, ora se espraindando em uma lagoa, mas a frente há um trecho
onde passa-se por uma laje de pedra.
    Num ponto de ônibus precariamente coberto com uma estrutura de madeira e
lona encontro Hélio,Lúcia e Juliano lanchando, a Márcia tinha continuado e
devia estar bem a frente. Paro com eles alguns minutos. Ao prosseguirmos
logo topamos com uma subida curta de um 600 metros, e alçancado o topo e
ultrapassada a crista, temos uma ampla vista do vale do rio São Mateus e das
serras mais a frente. Começa então a longa descida até o trevo de Faria
Lemos, descida que se prolonga por 5 ou 6 kms, o panorama é bem bonito, o
tempo se mantinha seco, viam-se os meandros do rio no fundo do vale,
enquanto na encosta oposta predominavam os pastos, as vacas e alguma casinha
perdida  de fazenda. O topo dos morros permanecia florestado, e as vezes, o
caminho atravessava alguma capão de mata.
    No meio da descida encontramos “as telúricas”, elas tinham vindo de
carro até um certo ponto da descida, acho que próximo a placa cachoeira do
chicão, e vieram subindo à pé, até encontrar os últimos do grupo, no caso
Hélio e Lúcia, passando a descer de volta a Faria Lemos junto conosco.
    Alcançado o trevo, onde à direita há um laticínio, ornado de mangueiras,
todas carregadas de frutos, segue-se mais uns 3 km de asfalto, passando por
duas bicas, e inumeráveis mangueiras carregadas de frutos.
    Alcançado o calçamento, no T, peguei a direita, passando por uma padaria
e seguindo mais uns 200 metros até a animada praçinha, seguindo mais uns
metros e pegando a primeira rua à direita, no que parece ser o antigo
traçado da ferrovia, e seguindo mais uns 100 metros, encontra-se o Hotel
Ventura, o único da cidade, bem em cima de um supermercado.
    A hospedagem foi um problema. O dono disse que tava lotado, que se eu
não tivesse reserva não tinha jeito. Perguntei se no quarto tinha duas
camas, e recebendo resposta positiva, perguntei ao Juliano se podia ficar
com ele. Ele disse que sim, e ai acabaram meus problemas.
    Hospedado e banhado, sai para dar uma volta na cidade, o sol resolveu
sair, e forte. Rodei toda a cidade, tomei um refrigerante e tirei algumas
fotos.Mais tarde fomos todos juntos jantar no único restaurante da cidade, o
Feijão sem Bicho.Para chegar no restaurante basta seguir o traçado antigo da
estrada de ferro, saindo do hotel,passando pela praça, ao lado da antiga
estação e seguindo até ver o restaurante do lado direito, pintado de
amarelo. Há vários pratos com peixe. Durante o jantar caiu mais um pé-d’água
daqueles. Após uma passada na sorveteria da praça, fomos todos dormir.

   4. Dia  Faria Lemos – Carangola ( 22.85 kms )

   Partimos em 4 neste dia, eu e o casal persistência ( hélio e Lúcia )
pelas 7:00, Homero um pouco mais cedo. Juliano foi de carro para Carangola,
para uma visita ao hospital, uma picada de inseto em sua perna havia inchado
muito e doia quando ele pisava. Márcia e as telúricas ( Júlia e Andreia )
seguiram de carro até um ponto na serra dos cristais. A saída antecipada de
Homero levantou suspeitas de que ele pretendia recorrer a metodos ilícitos
como seguir pela estrada asfaltada, cujo percurso era mais curto, ou mesmo
ir de ônibus para Carangola.
    Voltando pelo mesmo caminho por onde chegamos, após passar a padaria era
só seguir em frente e em menos de 1 km acabava o calçamento e começava a
estrada de lama, digo, de terra. Dois kms depois passa-se pela fazenda do
Coronel Novaes ( fazenda Boa Esperança ), o Cel Novaes foi famoso e temido
em sua época pelos desmandos e atrocidades praticadas por seus jagunços.
Logo após a fazenda, o caminho cruza o rio e passa a acompanha-lo pela
margem direita. O caminho vai subindo lentamente e cerca de 3,5 kms depois,
logo em seguida a um trecho em que a estradinha afundou devido a erosão, não
dando passagem nem sequer a veículos 4×4, avista-se uma cachoeira á direita,
e na sequência, uma bifurcação antes de uma ponte, tomamos à esquerda.
    Seguindo mais 5 km passamos pelo trevo da fazenda Cláudio Machado,onde
fiz uma parada para descanso. Passamos uma ponte e andamos mais quase 2 kms
até a fazenda das Palmeiras, onde dizem que há um alambique que produz a
melhor cachaça da região,chamada “Nota dez”. Não querendo carregar nem um
grama extra, nem entrei na fazenda.
    Mas um pouco e começa a subida da serra dos cristais, chamada assim
porque o solo é todo juncado de pequenos cristais. Neste ponto encontramos
Márcia e as telúricas, que confirmaram que Homero havia passado por elas, já
há algum tempo, acabando enfim com nossas suspeitas de trambique da parte
dele. Parei e fiquei com elas até que Hélio e Lúcia nos alcançacem. Partimos
todos juntos para subir a serra. Do alto disseram que haveria visão de toda
região em torno, porém a vegetação na beira do caminho prejudicava demais a
visão, não consegui ver grande coisa.
    Uma vez no alto, imediatamente começa a descida, seguida de um trecho de
baixada sem dificuldade. Pelo km 18,5, alcançamos a estradinha para Caiana,
que tomariamos no dia seguinte. Voltamos então 4 kms até Carangola, passando
pelo Horto, pelo estadio municipal,pelo clube campestre, até chegarmos a
praça da matriz, na qual fica o Gram Palace Hotel,onde nos hospedamos.
    Fomos encontrar o Juliano capotado no seu quarto, no hospital tinham lhe
aplicado duas injeções que o deixaram totalmente xarope.
    O Gram Palace é um muquifo metido a hotel 5 estrelas, não gostei muito
do hotel, os quartos eram pequenos e abafados, e o preço da diária acima da
média.
    Banhado, fomos almoçar no Spaço Solar, restaurante bem razoável, que
fica na rua à direita de quem sai do hotel, na primeira esquina depois da
praça. Em frente ao restaurante há uma sorveteria, com sorvete muito bom.
    O resto da tarde gastei passeando pela cidade e descansando no quarto.
Jantamos no mesmo lugar e fomos dormir.

    5. Dia Carangola – Espera Feliz ( 33.3 kms )

    Partimos mais cedo, eu pelas 6:00, Homero, Hélio e Lúcia ainda mais
cedo, pelas 5:20, a Márcia depois de mim. O trecho inicial é a repetição do
trecho final do dia anterior, voltamos então passando pelo clube campestre,
pelo horto, até a bifurcação, onde pegamos a esquerda ( em frente ), tomando
a direita voltariamos para Faria Lemos.
    O caminho prossegue, incialmente plano, e posteriormente subindo
suavemente, passamos por várias fazendas, sendo a última a fazenda Parada
General. Quase duas horas de caminhada levam-me até a Parada General, antiga
parada da estrada de ferro, onde há uma pequena plataforma coberta, uma casa
parcialmente desmoronada e, um pouco mais a frente, uma antiga caixa d’água.
Parei para descansar um pouco. Nem sinal dos que sairam a frente, o que só
reforçou as suspeitas, que já corriam à socapa, de uso de dopping pesado.
Inclusive no dia anterior foi encontrada uma seringa hipodérmica na bagagem
de um dos participantes.
     A partir desse ponto segue-se pelo antigo leito da ferrovia até Caiana.
O trecho tem declividade muita baixa, sempre bordejando a serra para
direita, muitas vezes com cortes na rocha à esquerda. A baixa declividade
faz com que muita água empoçe, formando muitos lamaçais.
     Tomando então a direita, passamos sucessivamente pela fonte Santa Clara
( depois de cerca de 2 kms ), um pouco a frente por duas casas das turmas de
manutenção da via permanente e, em mais uns 500 metros, por um arco escavado
na rocha, pequeno túnel de 4 metros de profunfidade.
      Numa parada para descanso, após o arco, Márcia me alcança, mas
enquanto ela descança, eu prossigo. Daí a pouco alcanço “as telúricas”, que
agora estavam caminhando descalças, aproveitado o efeito medicinal da lama
imagino. Mal as deixo para trás e chego a antiga estação Ernestina.
Abandonada, sem telhado e com as portas e janelas arrancadas. Paro para
tirar umas fotos e “as telúricas” me alcançam. Parto novamente e no km 21,
alcanço a carro que as espera. Elas vieram de carro até a Parada General e
serão resgatadas na fazenda do Vinícius.
      Prosseguimos pelo leito da estrada de ferro, agora fora da mata,
atravessendo pastos e passando por fazendolas. Mais 4 km e chego a Caiana,
começa a garoar, paro para descançar e tomar uma coca num pequeno boteco.
Nesse meio tempo a Márcia chega. A garoa para e partimos juntos rumo a
Espera Feliz.
      De Saída, deveriamos ter tomado à direira em um cruzamento, seguimos
em frente e ao notarmos que estavamos errando, perguntamos o caminho a um
grupo de senhores. Eles perguntaram se queriamos ir pela rodagem ( asfalto )
ou pela estrada de chão. Com certeza era pela terra. Disseram para pegar à
direita, de novo à direita e depois a esquerda, passando pelo posto de
saúde. Era esse mesmo o caminho, o posto de saúde era uma das referências.
Logo depois do posto, passamos por uma ponte e acaba o calçamento, o caminho
segue plano,passando pelo aeroclube.
      Neste ponto a Márcia ficou para trás. Mais um pouco e começa uma
subida de 1 km, assim que ela acaba, começa a descida, já com vista de
Espera Feliz. Mais um km e chegamos ao calçamento. Seguindo em frente mais
um km, chegamos ao cruzamento com a rua principal da cidade, a esquerda, na
esquina há um seminário. Quebrando então à direita,segue-se mais uns 500
metros até os hoteis, próximos a rodoviária, passando antes pela matriz.
      Fiquei no hotel Pico da Bandeira, o melhor de toda viagem, há outros
dois logo em seguida, mais baratos. O jantar foi um problema, era dia 1 e
estava tudo fechado, acabei tendo de comer uns salgados na rodoviária ( não
recomendo ) e tomando um sorvete numa sorveteria que achei na rua por onde
continua o caminho no próximo dia.
      Esperava ter encontrado Cleusa & Cia no trecho do dia anterior, ou na
pior das hipotéses em Carangola, e até ai nada, já estava achando que eles
tinham desistido. Na certa ela devia estar em Bragança, balançando numa
rede. E eu enfrentando a chuva e lama sozinho. Tudo bem, iria seguir até o
fim assim mesmo. Qual não foi minha surpresa quando estando no saguão do
hotel, à noite, me aparece a turma toda, além da Cleusa, Guga, Katia e
Jefferson, também a Gi e o Pascoal !! Eles iriam tentar comer alguma coisa e
eu fui junto acompanha-los. Acabamos num trailer da rua principal. Após
tomar mais uma coca e ficarmos conversando por uma hora, fui dormir. Eles
continuaram esperando seus sanduíches, que demoraram sei lá quanto !!

    6. Dia Espera Feliz – Alto Caparaó ( 33,95 kms )

     Acordei mais tarde nesse dia, o café só era servido no meu hotel a
partir das 6:30 . Saimos pelas 7:00, apenas em três: Eu, Homero e Hélio, o
Senhor persistência. O resto da trupe seguiu de carro para Alto Caparaó.
Acho que já tinha caminhado o suficiente.
     O caminho segue pelo antigo traçado da estrada de ferro, praticamente
plano, sempre pela margem esquerda de um rio. Depois de uma hora e pouco,
parei para descançar e os dois continuaram, não os alcançei mais.
      Apesar das chuvaradas diárias há mais de uma semana e da pouca
declividade do caminho, os trechos enlameados eram até que supreentemente
poucos.
      Depois de 8,5 kms passamos pela antiga estação de Pedra Menina, à
esquerda. Continuandos por mais quase 9 km, atravessamos uma estreita ponte
metálica, que só dá passagem para um veiculo por vez, também remanescente da
ferrovia. Mais uns 3 km e finalmente chegamos a Caparaó.
      Parei em Caparaó para descançar e tomar uma coca. Começou a chover e
não parou mais até depois de eu chegar a Alto Caparaó.
      Pensava que o povo da bike passaria por mim neste trecho, mas nada !
      Partir de Caparaó, açoitado pela chuva. Antes mesmo de acabar o
calçamento já começa a subida. Depois de 1 km de subida, segue-se uma
descida tão longa quanto. E logo em seguida outra subida. No final da
segunda descida, parei para descançar no alpendre da sede de uma fazenda à
esquerda.
       A chuva não parava, prossegui assim mesmo. No final da segunda
descida há uma ponte sobre um riacho que faz a divisa entre Caparaó e Alto
Caparaó. Há tambem um bifurçação, toma-se a direita para Alto Caparaó. Segue
uma terceira subida, após a qual o caminho torna-se quase plano.
       Passada a terceira subida, passa-se por um armazem de café, à
esquerda, por um ponto coberto de ônibus à direita, e dai até o calçamento
são menos de 3 km. Chegando ao calçamento segue-se em frente até uma
bifuração em T, onde o topo do T é a rua principal de Alto Caparaó. Tomando
à direita, ainda falta um bom pedaço de subida até a praça da matriz. Todo
trecho calçado tem uns 3 km. Essa subida final no calçamento me pareceu a
parte mais cansativa de todo caminho.
       Chegando na praça da igreja, à esquerda fica a pousada Serra Azul, o
pessoal tinha reserva nela, fui procura-los. A dona da pousada até parece
ser boa gente, mas é muito atrapalhada. Depois de falar com umas três
pessoas, fui saber que o povo tinha desistido de ficar justamente pela
demora em hospedar-se, fruto da desorganização local. Eu estava todo
molhado, com as pernas enlameadas, só queria tomar um banho e descançar em
paz por uma hora. A dona da pousada disse para eu esperar um pouco que iria
dar um jeito no quarto e não sei que. Estava sem paciência de esperar, e
como o motivo primário de eu ficar ali era ficar juntos com os colegas e
eles já tinham se mandado mesmo, decidi me arrancar também e ir para a
pousada Vale verde, do outro lado da praça, que eu já conhecia e achara bem
razoável. O povo tinha ido para a pousada do Bezerra, 2 km acima e como eu
já sabia, bem mais cara.
        Encaminhei-me então para a pousada Vale Verde. Chegando lá, fui
prontamente recebido. Tomei um banho, descansei e mais tarde subi até o
Bezerra encontrar o pessoal. Depois de alguma conversa, onde fui chantageado
a subir até a tronqueira de jipe junto com eles, eu pretendia ir à pé, desci
para praça e jantei no restaurante ao lado da minha pousada. Comido fui
prontamente dormir o sono dos justos.

     7. Dia Alto Caparaó – Pico da Bandeira ( 18,1 km )

     Acordei quase 7:00 e tomei o café. Tinha pensado que iria subir o pico
com Cleusa & cia, mas cadê eles ?? No dia anterior não os tinha encontrado,
parece que nem tinham chegado a Alto Caparaó ! Resolvi subir com o pessoal
com o qual já estava andando. Subi então à pé até o Bezerra, cerca de 2 km
acima. Eles iam de jipe até a tronqueira, e com já disse fui obrigado a ir
junto. Esperamos então o jipe que já havia sido contratado e fomos com ele
até a tronqueira. O tempo já estava feio, e a garoa nos acompanhou até lá em
cima. De baixo não se via nada do topo da serra.
     Chegando a Tronqueira, o primeiro a pedir arrego foi o Homero, ele que
ficou pondo fogo todo dia anterior, convocando todos a subir o pico, foi o
primeiro a desistir !! Começamos a subir a trilha para o terreirão, e logo
Andreia desiste também e volta para a tronqueira, somos agora só 6 do nosso
grupo subindo , outro grupo de 8 também sobe.
     A trilha sobe sempre seguindo pela margem esquerda do rio José Pedro ,
bastante escavada pela erosão, com água correndo em diversos pontos, a chuva
não dava trégua. Há abundante sinalização na forma de marcas amarelas nas
rochas.
     Em 1 hora e dez, eu e o Juliano alcançamos o Terreirão, e esperamos um
bom tempo até que os demais chegassem. Uma siriema passeava pelo gramado.
Encontramos uma barraca armada, não chegando a ver o campista, mas disseram
que ele subiu depois de nós ao pico, juntando-se ao outro grupo.
     A visibilidade baixava ainda mais a partir do terreirão e a chuva
continuava a cair. Resolvemos subir assim mesmo até o cume, menos a Júlia,
que resolveu ficar no terreirão, assim como uma dona do outro grupo.
    A subida fica mais ingreme do terreirão ao cume e muita água escoava
pelas canaletas erodidas, tornando a trilha em riacho. A cada parada para
descanso, sentiamos frio e eramos forçados a continuar a andar para nós
aquecer. Quase no colo entre a Bandeira e o Calçado, Márcia que até ai nós
acompanhava, decidiu parar e esperar o casal persistência que vinha mais
atrás. Subimos rapidamente eu e Juliano até o topo. Ficamos uns 15 minutos
no topo, a visibilidade era quase nenhuma, da cruz mal dava para ver a
torre !!! A chuva continuava e o vento era cortante, o frio estava além do
suportável. Comi rapidamente meu lanche e antes de acabar o Hélio chegou. A
Lúcia  havia ficado no colo com a Márcia, cerca de 5 minutos abaixo. Ele
também comeu alguma coisa e enquanto o outro grupo chegava ao cume,
começamos a descer. O começo da descida foi pior, minhas pernas estava até
meio duras de frio. Precisou esquentar um pouco com o movimento para que
meus movimentos ficassem mais fáceis. Rapidamente descemos até terreirão e
ficamos esperando o casal chegar. Depois de algum tempo de espera eles
chegaram. Imediatamente tomamos a trilha para tronqueira. O frio estava
demais, a chuva não parava. Quando chegamos a tronqueira, a chuva parou, mas
ainda sentia frio. Tivemos de esperar um bocado pelo Casal e pela Júlia.
Quando começamos a descer para a portaria do parque até parecia que tempo
estava querendo abrir !! Da pousada do Bezerra até a praça desci à pé,
estava sonhando com um banho quente. Depois do banho cochilei uma hora e
pouco, depois subi de volta ao Bezerra, para jantar com o pessoal, e nos
despedirmos, no dia seguinte cada uma tomaria seu caminho.
      Depois da despedida, desci até a praça e voltei a pousada Serra Azul
para pegar o meu certificado de Caminhante da Luz. Acabei encontrando com a
Cleusa & Cia, eles tinham chegado naquele dia e estavam hospedados lá.
Conversamos e depois acompanhei-os até uma pizzaria. Eles pretendiam subir
ao Terreirão, dormir no refúgio para atacar o pico no dia seguinte. Sem
perspectiva de melhora no tempo resolvi não acompanha-los.
      No dia seguinte ainda encontrei-os e acompanhei-os por uns 500 metros
da subida em direção a portaria, mas a chuva que começava a cair me demoveu
de ir mais longe. Voltei a pousada, guardei minhas coisas e partir rumo a
Manhumirim, onde pegaria o ônibus de volta a São Paulo.
      Agora eu era um caminhante da luz e outros caminhos se abriam a minha
frente….