Pedra da Bacia

    Para muita gente as atrações da Serra da Bocaina parecem se limitar a
tradicional “trilha do ouro”, mas a região guarda ainda muitas outras
caminhadas e montanhas a serem conhecidas. Dentre os cumes da Bocaina o mais
alto é a Pedra da Bacia, que com seus 2095 metros aparece na carta como
Pedra Alta.
    No Penúltimo fim de semana fomos subi-la, eu, Nelson, Rodrigo e
Roberta.  Na sexta à noite, pelas 20:30, partimos rumo a bairro do Formoso,
no município de São José do Barreiro. Seguimos pela Dutra até Queluz, última
cidade antes da divisa de estado, passando por dentro da cidade e tomando a
estrada para Areias. A estrada continua com um desvio de terra no seu trecho
mais alto, desvio que já existe há anos e parece até que aquela estrada
nunca mais será consertada. Voltando ao asfalto, outra surpresa, uma boiada
passeia pela estrada em meio à noite, desviando dos bichos, logo chegamos a
Areias, e seguindo agora pela rodovia dos Tropeiros, neste trecho bem
conservada, seguimos rumo ao Barreiro. Passando o Barreiro ainda faltavam
mais 9 quilômetros até o Formoso, num trecho onde o asfalto está
visivelmente mais gasto e a sinalização apagada. Chegamos ao Formoso às
00:50 e logo localizamos a Pousada Formoso, na beira da própria estrada,
junto a uma pracinha. Foi preciso acordar a proprietária, Dona Pedrita.
Rapidamente nos instalamos em nossos quartos para uma boa noite de sono, já
que a subida no dia seguinte seria longa.

    Acordei às 7:00, eu e o Nelson, mas foi difícil fazer o casal levantar!
Só fomos tomar o café da manhã já quase 8:00. Pagamos a diária ( R$ 25,00 )
e partimos. De carro voltamos pela estrada algumas centenas de metros,
passamos uma ponte e tomamos à esquerda a estrada do Cachoeirão. Por ela
seguiríamos uns 6 km até a Pousada Fazenda da Barra. A estrada de terra
segue sem subir muito, até que avistamos a placa da fazenda indicando a
esquerda, passamos uma ponte e subimos por uma íngreme subida cimentada,
atravessamos uma porteira e chegamos a fazenda. Pedimos para estacionar o
carro ali e deixaram sem problemas. Ali até podia ter sido o ponto de
pernoite, mas os preços são um tanto salgados.
    Iniciamos então a caminhada voltando até a estrada e subindo por ela.
Em pouco tempo passamos uma porteira e cruzamos um riacho por cujo vale
subiríamos, deixando uma casa à direita. Segue-se um zigue-zague onde
trilhos cimentados paralelos foram feitos para facilitar o acesso do carro
de algum morador. Na bifurcação acima, abandonamos o cimentado e tomamos à
direita. A subida prossegue com o riacho ficando cada vez mais para baixo. À
direita, deveria ser possível ver o topo da Bacia e a frente o selado por
onde passaríamos, mas as nuvens que se acumulavam nas cristas da serra
toldavam toda visão. Cerca de uma hora acima, paramos junto a uma
bifurcação, onde um fio d’água corria a esquerda, permitindo-nos reabastecer
os cantis e logo a frente um riacho caia em pequenas quedas e passava sobre
uma ponte de troncos. Paramos para um pequeno descanso.
    Seguimos então pela direita, passando pela ponte continuando a subir
pela estradinha que ficava cada vez pior.  Por volta das 11:00 chegamos à
última casa, onde o fio elétrico acaba. Na verdade, dois postes antes da
casa, junto a uma árvore isolada à direita, abandonamos a estrada e pegamos
uma trilha à esquerda pelo pasto, em pouco tempo ela devolve-nos a dois
sulcos paralelos, ultrapassamos uma porteira de arame e após seguir ainda um
pouco para a esquerda, a trilha quebra para a direita e volta a subir a
encosta, por sulco que já avistávamos lá de baixo, na diagonal da esquerda
para a direita. A “trilha” tem largura de estrada e pelo visto deve ser
percorrida eventualmente pela Toyota do proprietário de uma casa mais acima,
que deve freqüentar o local apenas em fins de semana e feriados.
    Eram quase 12:00 quando paramos para o almoço, junto a um borbulhante
riacho à esquerda. Enquanto comíamos, o sol que se mostrava entre nuvens
desde o começo do dia foi totalmente encoberto, fazendo com que a
temperatura caísse bastante. Voltamos a andar, subindo rapidamente para
esquentar, passamos por mais 4 riachos, e por uma saída a direita que leva a
casa com piscina no campo um pouco mais abaixo. Antes do trecho onde a
estradinha desce um pouco e acaba numa porteira trancada a cadeado,
abandonamo-la e tomamos trilha à esquerda, subindo as zigue-zagues até o
selado, aonde chegamos pelas 13:00. Dali a vista do vale por onde subimos é
muito bonita, embora a névoa não permitisse avistarmos muito longe naquele
instante.
    A partir daí a trilha prossegue bucólica por dentro da mata descendo
suavemente. A certa altura cruzamos com uma boiada sendo tocada serra
abaixo, o que nos obrigou a encostar a beirada da mata para permitir a
passagem dos bois, dos cavaleiros que os conduziam e de sua dúzia de
cachorros. Em menos de uma hora emergimos no aberto com os campos da bocaina
a nossa frente. À nossa direita o vale por onde seguia o riacho que
acompanhávamos e mais além, a crista que galgaríamos e por onde voltaríamos
já que o pico tinha ficado para trás. Em pouco tempo a trilha pelo pasto
começa a virar para a esquerda, seguindo para o vale do Bonito. Quando
chegamos próximos a uma araucária isolado na baixada, abandonamos a trilha e
descemos na direção da araucária. Logo encontramos uma trilha no pasto que
passando a esquerda da araucária entra numa matinha, cruza um riacho e sobe
de novo para o aberto. Bordejarmos pelo pasto por um tempo antes de
descermos até o riacho no fundo do vale, onde preferi tirar as botas para
atravessar. Do outro lado prosseguimos, rapidamente saindo da mata ciliar, e
após cruzarmos dois fios d’água, seguimos pelo pasto contornando um morro à
esquerda. Quando a trilha se bifurcou, pegamos a esquerda, o que foi acabou
sendo um erro. Essa trilha deve desembocar no miolo do parque, em algum
ponto próximo a cachoeira São Isidro. Mas não fomos tão longe, seguimos por
ela só até esbarrarmos na cerca de arame do parque. Tivemos então de subir
ao longo da cerca, num trecho onde ela sobe um íngreme aclive, com bambus
formando quase que um túnel junto a ela. Se tivéssemos pegado a trilha à
direita um pouco antes, teríamos ziguezagueando pela encosta de capim,
chegando a cerca num ponto acima desse trecho.
   Segue-se então uma subida ao longo da cerca, vencendo um desnível de 250
metros, com o sol batendo diretamente em nossos rostos. Esse trecho tomou-
nos um pouco mais de uma hora, mas ao atingirmos o alto da crista, onde a
cerca quebra para a direita, descortinou-se um amplo panorama de quase 360
graus. Olhando para trás pudemos ver o vale por onde viéramos e parte do
caminho percorrido e desse lado, bem ao fundo, atrás das montanhas mais
próximas, a Pedra do Frade. Do lado oposto, podemos ver a estrada de acesso
ao parque, vinda do Barreiro, algumas das fazendolas e pousadas rurais junto
a ela. Pudemos também perceber que já estávamos mais altos que a maioria das
montanhas ao redor.
    Após algum descanso, passamos para o outro lado da cerca e a seguimos
por alguns sobes e desces pequenos até que a cerca entra na mata. Ali
procuramos um trilha pelo pasto a esquerda, e seguimos em arco por ela, por
alguns minutos, até entrarmos na mata em um outro ponto. Seguimos pela mata
por uns 10 minutos até desembocarmos numa clareira, junto a um afloramento
rochoso, com vista para o norte. Ali largamos as mochilas e seguimos por
mais 5 minutos pela mata até uma grande pedra que contornamos pela direita,
subindo um pouco e seguindo mais um minuto até atingir a laje que forma o
cume da pedra da Bacia, por onde subimos até o alto, obtendo então visão de
todo  entorno: da crista da Mantiqueira ao norte, Marins-Itaguaré, Serra
Fina, Itatiaia, abaixo o vale do Paraíba com a represa do Funil ao centro, a
direita o vale por onde subíramos e em torno todas as montanhas da Bocaina.
Antes de escurecer completamente voltamos até as mochilas e por ali mesmo
armamos as barracas nos espaços que encontramos, na verdade eu e o Nelson
armamos as nossas na própria trilha, com certeza ali não é local freqüentado
pro grandes grupos.
    Depois de nosso jantar sob um céu coalhado de estrelas, mergulhamos em
nossos sacos de dormir para uma noite de repouso depois da longa ascensão.
Como resolvemos descer pelo mesmo caminho por onde subimos não era
necessário acordar muito cedo.
   
    No dia seguinte fui o único que acordou cedo para ver o sol nascer.
Levantei às 6:00 e tomei a trilha até o cume. Foi preciso lanterna para
percorrer os 10 minutos pela mata ainda bastante escuros àquela hora.
Cheguei ao cume e pude ver que todo o vale do Paraíba estava recoberto de
nuvens, de onde só emergiam a crista da Mantiqueira e da Bocaina, onde
estava. O sol nasceu por entre nuvens uns 15minutos depois, fiquei
observando o panorama por mais algum tempo e depois voltei ao acampamento
para o café da manhã. O Nelson já tinha levantado e após o café voltei com
ele até o cume novamente para algum tempo de contemplação. Observei então
que pouco antes do cume, onde contornamos uma rocha pela direita, uma trilha
à esquerda parece descer a crista por dentro da mata, deve ser a outra
trilha de acesso pelo lado oposto do vale por onde subimos, da qual já
tínhamos ouvido falar. Deve ser um outro acesso mais rápido e íngreme, ou
pode servir como rota alternativa de descida, fica a idéia para futura
exploração.
      Acabamos de desmontar o acampamento e iniciamos a descida às 9:45. A
volta transcorreu sem incidentes. No ponto onde a cerca quebra para a
esquerda e desce a encosta, de onde podemos avistar a estrada de acesso à
portaria do parque, avistamos algumas pessoas no cume de um morro próximo,
provavelmente provenientes da pousada Recanto da Floresta, aliás, por essa
crista é que deve ser o acesso mais curto para a Pedra da Bacia vindo da
pousada ou de algum ponto nas proximidades dela, outra possibilidade de
acesso facilitado para os menos preparados.
     Descendo pela cerca, dessa vez desviamos do túnel de bambus, descendo
para a esquerda até achar a trilha pelo pasto e descer as zigue-zagues até a
baixada. Cruzamos o rio e subimos pelos campos até alcançar a araucária
isolada, próximo a qual paramos para o almoço, já que era quase 12:00. Neste
ponto, se seguíssemos a trilha para a direita, cruzaríamos uma crista e
desceríamos para o vale do Bonito, saindo numa estradinha, onde para a
direita seguiríamos em direção ao miolo do Parque da Bocaina e para a
esquerda desceríamos rumo a Arapeí, sendo que numa bifurcação cerca de 3 km
antes de Arapeí, poderíamos tomar outra estradinha até o Formoso, onde tudo
se iniciou. Esta é uma outra opção para que tiver mais tempo e quiser andar
uma pouco mais.
     Prosseguimos pela trilha através da  mata até o selado e descemos
pelos intermináveis zigue-zagues até a estradinha e por ela até a Pousada
onde deixamos o carro. No trecho onde passamos por dois trilhos cimentados,
antes de uma casa a esquerda, avisei que havia uma cachoeira atrás do
morrote. Eu e o Rodrigo largamos as mochilas com os outros e pegamos uma
trilhazinha quase escondida subindo à esquerda pelo pasto aos zigue-zagues e
depois descendo rapidamente pela mata até alcançar o rio, onde a pequena e
graciosa cachoeira da Mata, com seu fundo poço, esconde-se entre a mata
ciliar.
       Pelas 15:30 alcançamos o carro e iniciamos a volta para São Paulo.
       Concluindo a região apresenta muitas outras opções, inclusive outros
acessos a Pedra da Bacia e outras possibilidades de saída, inclusive
emendando com a trilha do ouro por uma das suas entradas clandestinas.

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