travessia Vista Alegre

A idéia original era percorre o trecho da crista da Mantiqueira entre a estrada Lorena-Itajubá e o pico do Carrasco, passando pelo Alto da Vista Alegre. O Rafael, o Bob e a Paula confirmaram participação e fiquei de comprar as passagens.

        O primeiro contratempo foi que quando fui comprar as passagens, não havia mais lugar no ônibus direto de São Paulo para Itajubá pela Pássaro Marrom. Tive então de comprar passagem para Guaratinguetá e de lá para Itajubá. Com isso já haveria um atraso no inicio da caminhada, uma vez que o horário previsto de chegada a Guará era às 8:30 e o mais próximo horário de saída para Itajubá era às 9:40, ou seja, teríamos uma espera de 1:10 na rodoviária de Guará. Esse tempo de espera acabou servindo para tomarmos o café da manhã, mas o tempo perdido acabou-nos fazendo falta ao final do dia.

         Saindo de Guará, o ônibus entrou em Lorena e depois em Piquete, antes de começar a subir a serra. Saltamos no alto da serra, cerca de cem metros antes da divisa SP/MG, onde há um antigo posto da policia rodoviária desativado do lado esquerdo da estrada. Por sorte nesse ponto, o acostamento que falta ao longo de toda subida, existe por pequeno trecho do lado direito, de modo que o ônibus pode encostar sem problemas para que pudéssemos pegar nossas mochilas no bagageiro.

       Atravessamos a pista e encostamos as mochilas na frente do posto da policia enquanto fazíamos os últimos preparativos antes de iniciar a caminhada. A essa altura, a nevoa que cobria o alto da serra não nos inspirava muita confiança.

        Iniciamos a caminhada seguindo pela estrada de terra que sai do asfalto bem do lado direito do posto. O caminho logo passa por uma antiga rampa de asa delta abandonada e semi-destruida. Dali, apesar da cerração, tínhamos alguma vista do vale abaixo e da cidade de Piquete bem em seu sopé. Se o tempo estivesse mais aberto teríamos visão bem ampla. A estradinha segue quase plana por um tempo e depois passa a subir. Após uns 40 minutos paramos um pouco junto a uma porteira do lado esquerda da estrada. Uma placa quase apagada diz que ali havia uma mineradora, mas o local parece bastante abandonado. Um lago de águas estagnadas e muitas hortênsias semimortas compõem a paisagem do local.

         Seguimos em frente pela estrada que pelo visto não tem sido muito transitada. Em muitos pontos a vegetação rasteira cresceu tanto que a estrada quase virou trilha. Num ponto o desmoronamento da encosta direita bloqueou totalmente a estrada. Passamos por um riacho à esquerda, primeira fonte d’água desde o asfalto e mais à frente, no meio de uma curva em ferradura, por outro riacho à direita. Ali paramos para um lanche e aproveitei para pegar água.

       Passamos depois por trecho onde a erosão já estava levando a estrada. Chegamos então a um ponto onde há uma bifurcação. À direita, subindo, há umas torres, que nesse dia nem conseguíamos avistar em meio a nevoa. Seguimos em frente, descendo, em trecho onde o leito da estrada estava bastante erodido.

       Procurávamos então o acesso para o morro dos Cabritos, morro bicudo, à esquerda da estrada e bem visível a partir dela, mas naquele dia a cerração não dava trégua, o que levou ao segundo contratempo do dia. Quando chegamos ao ponto onde devíamos abandonar a estrada e tomar um duplo sulco pelo capinzal, à esquerda e meio para trás, antes de um bosque de pinheiros, não conseguindo avistar a referencia visual marcante que era o morro dos Cabritos, duvidei que a trilha fosse aquela e seguimos em frente. Logo após passamos por outra saída, mais fechada que a primeira. A estrada ia descendo continuamente. Paramos para estudar melhor onde estávamos e eu larguei a mochila por ali e desci mais um pouco apenas para encontrar um chalé à direita, o que confirmava que já tínhamos passado do ponto. Voltei então, peguei a mochila e começamos a voltar para trás. Nesse momento o horizonte limpou por alguns minutos e pudemos avistar o morro dos Cabritos com sua marcante silhueta. Tomamos a segunda entrada que parecia seguir aberta direto rumo ao pico, mas a trilha sumiu antes de uma mata logo à frente. Tivemos que voltar a estrada, subir mais um pouco e pegamos o caminho certo que afinal era a primeira saída encontrada.

         Tomando o duplo sulco pelo capim logo ele entronca em outra trilha que vem da esquerda, onde, aliás, há um cruzeiro de madeira. Entramos agora no aceiro da divisa da fábrica da Imbel, que seguiríamos dali em diante. Aliás, a divisa da fábrica coincide nesse trecho com a divisa SP/MG, a qual segue bem pela crista da serra.

        Logo o trecho plano acaba e alcançamos o sopé do morro dos Cabritos. A subida é curta mais muito íngreme e escorregadia, com muitas pedras soltas. Em pouco tempo chegamos ao topo, marcado por vários marcos e por um mastro que não sei para que serve. Dali o visual deveria ser maravilhoso, mas nesse dia só víamos nuvens ao redor. Fizemos uma pequena pausa para retomar o fôlego e tomar uns goles d’água e logo seguimos. Agora descendo pelo aceiro. No começo seguimos pelo aberto, mas logo passamos por trechos de mata, subindo e descendo um pouco.

       A caminhada segue por um bom tempo sem grandes problemas até chegamos a um ponto onde o aceiro quebra para a esquerda em ângulo de noventa graus. No canto direito três marcos e uma “lápide” de madeira, segundo o Bob, marcam esse ponto. Ali abandonamos o aceiro limpo e tomamos uma trilha em frente, bem mais fechada pelos bambuzinhos. Depois descobri que o aceiro desce mais pouco e logo termina em meio à mata, de modo que se você errar o ponto não conseguira ir muito longe em seu erro.

         Seguimos pela trilha onde a vegetação estava bastante crescida, mas o sulco no solo era sempre evidente, até que chegamos num ponto onde a trilha subitamente desaparecia. Exploramos um pouco ao redor procurando achar a continuação que perdêramos, mas nossos esforços foram baldados. Como já era 17:50 e logo escureceria, concordamos que o melhor era voltar ao aceiro e acampar por lá.

         Não tivemos problema para encontrar lugar para as três barracas e nos instalamos rapidamente com a escuridão já se adensando ao nosso redor. Por ali não havia água, e portanto tivemos de racionar o que tínhamos pois não esperávamos ter de acampar ali e a previsão era passar por a um riacho antes do fim do dia.

         Jantamos e antes das 20:00 já estava devidamente encapsulado em meu saco de dormir, tendo adormecido tão logo encostei a cabeça no chão. Durante a noite fraca pancada de chuva serviu apenas para molhar o sobreteto da barraca, não ocasionando maiores problemas. 

         Convenientemente a chuva parou logo após acordarmos. Tomamos um rápido café da manhã, já que não tínhamos água para desperdiçar, desmontamos as barracas e arrumamos as coisas dentro da mochila ainda resolvendo o que fazer.

          Afinal resolvemos entrar novamente na trilha para procurar onde tínhamos errado. A única outra alternativa seria voltar por onde viéramos e seguir pela estrada. Qualquer tentativa de rasgar pelo mato sem trilha seria altamente problemática dada a grande quantidade de bambus entrelaçados que havia naquela encosta.

          Era em torno de 9:00 quando reiniciamos a caminhada. Tomamos então a trilha, seguindo mais ou menos até o ponto que havíamos alcançado no dia anterior, e novamente tentamos encontrar o prolongamento da trilha. Tentamos seguir na mesma direção, mas nada de encontrarmos o sulco da trilha, até que o Rafael resolveu seguir para a esquerda por um trecho de capim alto e acabou reencontrando um rabo de trilha bem a esquerda da direção onde estávamos insistindo. Era por ali! Logo saímos no aberto num trecho com vista para o norte e ainda avistando mais a oeste uma torre de alta tensão. O segredo nesse trecho é manter sempre o rumo oeste, e se a trilha começar seguir outro rumo, muito cuidado que provavelmente o caminho certo ficou a esquerda.

            Em mais uns 5 minutos a trilha, sempre com o sulco bem evidente, entra na mata e começa a descer. Uma árvore caída tem de ser contornada pela direita e logo voltamos a trilha. Afinal emergimos na estrada de manutenção das torres, bem embaixo de uma torre. A estrada esta totalmente entulhada de vegetação, e parece ainda mais fechada que da última vez que estive por ali. Emergimos bem em um trifurcação. Em frente subimos para a torre, onde devia haver um bonito visual, se fosse possível chegar até a torre, o mato está muito fechado. Para a esquerda a estrada parece descer a serra no rumo sul. Tomamos a direita, inicialmente no rumo leste.

           Vamos avançando pela vegetação rasteira, às vezes nos desviando de uma arvore caída ou de trechos mais densos de arbustos, mas o caminho é sempre bem evidente. Em mais uns 8 minutos passamos por uma ponte de madeira sobre um riacho e ali paramos. À direita conseguimos chegar ao riacho e nos reabastecemos d’água. Seguindo em frente em mais alguns minutos passamos por outro riacho de acesso mais problemático. A partir dali a estrada começa a subir. Trechos de plantas espinhosas alternam-se com trechos mais fáceis até emergimos num trecho de pasto alto por onde seguimos até um ponto mais alto com vistas.

         Todo esse trecho de vegetação crescida fez-nos perceber que a perda da trilha no final do dia anterior na verdade foi uma benção. Se no dia anterior tivéssemos avançado até a estrada das torres com certeza a noite nos teria alcançado ainda nela e teríamos que percorrer todo esse trecho sob a luz de lanternas buscando fora do matagal um ponto onde pudéssemos acampar.

         Seguiu-se um trecho mais ou menos plano pelo pasto, acompanhando a linha de alta tensão a nossa direita. Mas em uns 10 minutos nos desviamos para a esquerda e começamos a descer até chegarmos a uma clareira guarnecida a direita por dois oratórios, um de alvenaria e outro de madeira. Ali o caminho por onde vínhamos encontra com a trilha dos romeiros, hoje parte do “caminho Frei Galvão”. Como pudemos constatar os tais romeiros não são muito conscientes e a clareira estava atapetada de lixo, que logo recolhemos.

        Eram 13:00 e a chuva que nos dera trégua por toda manhã parecia que iria recomeçar. Mais que rápido armamos as barracas e nem bem acabáramos, a chuva começou, obrigando-nos a nos refugiar-nos em nossas respectivas barracas. Preenchi o tempo de chuva fazendo um lanche regado a suco feito com a água, agora abundante, que obtivéramos no riacho. Depois deitei e tirei um rápido cochilo.

         Pelas 14:30 a chuva parou e pudemos sair das barracas para constatar que o solo na clareira havia se encharcado e que várias poças de água tinham se formado ao redor das barracas. Aproveitamos a nova trégua para subir ao alto da Vista Alegre, o morro que fica ao lado do acampamento. Voltando um pouco por onde viéramos, vemos sulcos subindo o morro a direita. Por um deles em minutos alcançamos o alto de onde se descortina vista do vale do Paraíba ao fundo e de seu vale tributário, o vale dos Pilões, por onde desceríamos ao final. Apesar das muitas nuvens dava para ver alguma coisa, inclusive podíamos ver Guará, ao longe, para a esquerda.

          Descemos de volta ao acampamento e como tínhamos tempo sugeri um passeio pela continuação da trilha. Com o tempo tão instável e com o atraso acumulado até ali a continuação da caminhada até o pico do Carrasco já tinha sido posta de lado. Nunca chegaríamos ao topo do pico antes da noite e encontrar outro lugar para acampar na crista de pasto alto e amplamente exposta era opção que podia ser descartada. A melhor opção seria ficar por ali e descer no dia seguinte rumo ao bairro de Pilões no sopé da serra.

           Seguimos em frente pela trilha com a idéia de ir até as cercanias da extinta pousada do Barão. Em uns 20 minutos chegamos ao primeiro riacho. Ali seria o último ponto de água do dia. A caminhada original prosseguiria subindo a crista à esquerda, rasgando uns 10 ou 15 minutos de mato fechado antes de emergir no pasto e continuar subindo por ela. Já fiz um relato desse trecho como nome de “circuito Alto do Carrasco”, se alguém se interessar e só procurar no meu Multiply.

          Dali o Bob e a Paula resolveram voltar ao acampamento, sábia decisão como logo perceberíamos. Para cruzar o riacho, que antes era provido de uma pinguela da qual só restou corrimão, tentei pular pelas pedras mais acabei caindo no riacho e molhando as botas. Droga! O Rafael nem tentou pular, já meteu os pés na água de uma vez. Seguimos pela trilha, passando por mais três riachos, o primeiro por uma oscilante pinguela, o segundo, mais estreito, consegui saltar, e o terceiro por uma ponte de madeira bem larga. Após o último riacho encontramos uma pequena e graciosa cachoeira do lado esquerdo do caminho. Nesse momento a chuva resolveu voltar a cair, mas continuamos em frente e logo chegamos as primeiras casas da fazenda/pousada. O Rafael avistou umas pereiras à direita, entre alguns casebres, e fomos lá rapinar umas pequenas pêras. Ainda seguimos mais uma centena de metros à frente até a sede da fazenda. A chuva deu mais uma parada e resolvemos voltar ao acampamento, mas assim que começamos o retorno fomos interpelados pelo caseiro, que nos perguntou se éramos romeiros, para onde vínhamos e para onde íamos. Até ai nada demais. Não demorou muito e chegou o dono do local. Ai tivemos uma amostra da típica mentalidade de senhor feudal. O tipo foi logo dizendo que era proibido passar por ali, que aquilo era tudo propriedade dele, que não podíamos acampar por ali, que tinha tirado uns drogados dali no dia anterior (ué, aquilo era trilha dos romeiros ou dos fumeiros?), etc, etc. O Rafael perguntou se sendo o trecho um percurso típico de romaria e inclusive parte do “caminho Frei Galvão” o pessoal que fazia o caminho também estava proibido de passar. A resposta é que havia outro caminho para descer a Guará por passando por fora da propriedade e que se deveria ir por ele. Onde fica tal opção atualmente é motivo de especulação para mim. Isso e mais os conselhos usuais, de tinha muita cobra por ali, que eles matavam três cobras por semana (ecológicos não?) e que se fossemos picados não andaríamos um metro e cairíamos no chão (pensei em apresenta-lo ao Divanei), só faltou dizer que tinha onça (ainda mais que a propriedade contígua é a fazenda do Onça), acho que ele esqueceu dessa, devia ter lembrado-o. De qualquer formar, como já estávamos acampados dentro do terreno dele e não pretendíamos sair naquele dia, ainda mais que faltava pouco para escurecer, achei melhor não discutir com o elemento. Em outra ocasião o teria lembrado de que aquilo tudo está para virar parque nacional, o que com certeza poria algum freio no seu mandonismo.

          Voltamos rapidamente para o acampamento, agora com chuva caindo de novo e mais forte. A trilha tinha se tornado um verdadeiro riacho e não pisar na água tinha se tornado impossível. Chegando as barracas me joguei para dentro e tirei as roupas molhadas. Depois de um tempo a chuva deu uma parada e pude por o fogareiro para fora e esquentar meu jantar. De qualquer forma a escuridão chegou e pouco restou mais a fazer do que deitar e dormir. Durante a noite a chuva vinha e ia. Com a madrugada começamos a ouvir também fortes ventos que sacudiam as barracas.

           No ultimo dia novamente a chuva parou pela manhã e então pudemos desarmar as molhadas barracas e arrumar as coisas sem muita preocupação. Iniciamos então a descida pela trilha a esquerda do acampamento (sul), onde desponta uma pequena placa com uma seta azul.

            Apenas para constar, o plano original incluía subir a crista rumo ao pico do Carrasco, acamparmos no pico. Na seqüência desceríamos pela trilha que sobe da fazenda do Onça, que é a trilha “oficial” de acesso ao pico. Chegando a fazenda, tomaríamos a estrada para a direita. Alguns quilômetros depois, numa bifurcação, tomaríamos a direita, chegando a pousada do Barão, onde tomaríamos a trilha de volta ao ponto de acampamento e daí a trilha para Pilões. Todo esse trecho foi amputado pela falta tempo e excesso de chuva.

            A trilha para Pilões, conhecida como trilha dos romeiros, logo entra na mata e passa a ziguezaguear por canaletas altamente erodidas, em vários pontos os barrancos ao nosso redor se tornam mais altos que nós! Muita lama e pedras soltas compõem a descida. Após descer uns 30 minutos passamos por uma saída a direita que em um instante dá acesso a um riacho. Continuando a descida e ao fim de umas duas horas, a trilha nivela, e após passar por um riacho, o qual saltamos pelas pedras, e continua bordejando agora no aberto. Logo chegamos a fazenda São Rafael. Ali após passarmos por duas porteiras, desembocamos numa estradinha.

           Descendo pela estrada passamos pela capela São Benedito e por vários sítios, e ao fim de uma hora e meia de estrada chegamos ao centro do bairro dos Pilões, onde a estrada ganha asfalto por uns duzentos metros. O Centrinho é composto por uma capela, um bar e mais uma dúzia e pouco de casas. Paramos no bar para um refrigerante gelado e fomos surpreendidos pela reconfortante noticia de que o ônibus para Guará tinha acabado de passar e que o próximo só daí duas horas e meia, exatamente as 14:00. Paciência! passamos o tempo bebendo e conversando. Pouco antes do horário seguimos para o ponto, cerca de cem metros adiante, ao final do asfalto.

          Na hora prevista o ônibus chegou e nos levou para Guará. De lá pegamos o ônibus para São Paulo cerca de meia hora depois, aonde chegamos com certo atraso por conta do transito pesado de final de feriado.

          De qualquer forma esta caminhada é uma bonita opção, pouco visitada e por isso um pouco fechada em alguns trechos, mas que pode ser feita tanto em um fim de semana, na forma abreviada que fizemos, como em três dias, como originalmente pretendíamos, desde que não sofram os percalços que sofremos. E tem a vantagem adicional de ser eqüidistante de São Paulo e do Rio, já que Guará fica a mais ou menos 200 quilômetros de ambas.

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