travessia Cristina-Carmo de Minas

          A idéia era seguir o antigo traçado da linha férrea, já erradicada há quase 20 anos, entre as pequenas cidades mineiras de Cristina e Carmo de Minas. Entre elas havia a estação do Ribeiro que pretendia localizar e se ainda houvesse algo em pé, fotografar.

          Chegando a Cristina, parei o carro numa pracinha ao lago da antiga estação de Cristina, hoje convertida em rodoviária, e iniciei a caminhada pontualmente às 10:00. O trecho inicial, convertido em rua segue margeando um riacho à esquerda, logo saindo da cidadezinha. A caminhada prossegue agora por uma estradinha de terra que ocupou o antigo leito da ferrovia. Logo passamos por cortes na encostas e mais a frente sobre um riacho, onde a antiga ponte ou bueiro parece ter sido substituído, pois há um desnível no leito da estrada. Após o riacho passamos por duas casas abandonadas e rodeadas pelo mato, à direita, que aparentemente deviam ser da turma de manutenção da via permanente. Numa curva à direita mais adiante temos uma bifurcação onde o ramo da esquerda, conforme uma placa indica, deve dar acesso ao asfalto que leva de Cristina a São Lourenço, passando por Carmo de Minas. Seguimos pela direita acompanhando o traçado da ferrovia. O vale se alarga à esquerda e logo avistamos o asfalto do lado oposto. Andando mais um pouco chegamos a nova bifurcação onde percebemos que o antigo leito seguida para a direita.

          Nesse trecho abandonei o traçado da linha férrea porque já sabia que seguindo pela direita, teria de passar por várias propriedades, e pular várias cercas, apenas para chegar a ponte em curva no fundo desse vale, onde a linha cruzava o riacho a nossa esquerda e depois voltava pelo lado oposto do vale, descrevendo uma ferradura, apenas para conseguir cruzar a baixada e continuar galgando a serrinha do outro lado. Tomei então a estradinha à esquerda, que desce um pouco, cruza o riacho por uma ponte de alvenaria e sobe ligeiramente do outro lado, passando por uma casa a esquerda. Cruzando a porteira de madeira a frente, chegamos novamente ao leito ferroviário, nesse ponto totalmente obliterado. Aliás, a região ainda é conhecida pelos locais mais antigos como curva da ferradura. Tomando a esquerda pelo pasto e tentando não assustar as vacas que pastavam no local, logo cruzamos uma porteira de arame e continuamos bordejando a encosta de pasto, seguindo pelos trilhos de vaca. Podemos então avistar a estradinha por onde viemos à esquerda, do lado oposto do vale. Cruzamos novas cercas e passamos por mais um corte na encosta, lentamente mudando de direção de Oeste para Norte e subindo tão suavemente que nem sentimos.

       Após um trecho de pasto mais alto, passamos por uma casa a esquerda e acabamos desembocando em nova estrada de terra. Nesse trecho o leito foi também convertido em estrada vicinal. Continuando pela estrada, agora sombreada pelos eucaliptos segue-se um trecho tranqüilo até que a estrada curva-se para a direita, nitidamente abandonando o antigo leito ferroviário. O jeito é pular a cerca a esquerda e continuar pelo leito, agora tomado por pasto alto, mas alguns sulcos de vaca facilitam o caminhar. Mais algumas cercas são cruzadas, e um primeiro bambuzal também é cruzado sem muita dificuldade.

       A caminhada prossegue pelo pasto até que nos aproximamos de um segundo bambuzal, mais cerrado, antecedido por alguns metros de grandes touceiras de capim gordura. Avançamos sem enxergar direito onde pisamos até chegar ao bambuzal, o qual não é tão cerrado quanto parecia, sendo facilmente atravessado. Quase ao final passamos por um riacho, onde observamos os restos de um pontilhão, somente os encontros de alvenaria. Pulamos mais uma cerca e seguimos margeando o arame a esquerda, onde há uma quase trilha através do pasto crescido. À frente já avistamos a ponte por onde a estrada de rodagem cruzava sobre a ferrovia.

       Chegando próximo a ponte o pasto abaixa tornando a caminhada mais fácil. Passamos então sob a rodovia passando então pelo ponto mais alto do traçado, onde inclusive é a divisa entre os municípios de Cristina e Carmo de Minas. Agora a linha seguia na direção noroeste, descrevendo longo arco para a direita, de modo a ter desenvolvimento para descer suavemente o desnível à frente. O caminho continua fácil, por pasto baixo e trilhado. Mais à frente quando começamos a virar para a direita, pulamos uma cerca e contornamos uma crescente voçoroca que já levou a maior parte do leito da linha.

       Passamos então a andar na direção leste, mais ou menos paralelos ao asfalto, mais bem afastados dele, e separados por fundo vale. Seguindo em frente chegamos a um trecho onde a mata tomou totalmente o leito, mas há uma tênue trilha que ziguezagueia pela mata e por onde prosseguimos sem muita dificuldade até voltarmos a emergir no aberto. Cruzamos um novo riacho e mais à frente passamos por algumas casas a direita e mais abaixo na encosta, de onde estridentes cachorros nos saúdam. Diversas cercas são atravessadas até que avistamos a antiga estação do Ribeiro, ao lado de uma casa e de um curral. O asfalto é visível a pouca distância, à direita, e um pouco mais abaixo. O prédio ainda está de pé e em razoável estado de conservação. A porta fechada por corrente com cadeado. Parece ser utilizada como galpão, mais olhei por uma janela entreaberta e vi que o interior estava vazio. No entorno da estação o mato estava bem crescido, mais seguindo em frente logo apareceu uma trilha e o caminhar tornou-se mais fácil novamente. O vale a direita vai se estreitando e percebemos que vamos nos aproximando cada vez mais do asfalto, só que no meio o vale se aprofunda, com o riacho engastado entre íngremes e quase verticais barrancas. A mata fechada domina esse trecho. O caminho vai ficando mais fechado, logo se reduzindo a uma estreita e tortuosa trilha em meio à mata. Cruzando um riacho por uma frágil pinguela, onde observamos novamente restos de um pontilhão. Parece que a trilha vai sumir a qualquer momento, até que subitamente desembocamos em um trecho aberto. A esquerda uma curta e íngreme descida dá acesso ao asfalto. O rumorejante riacho que acompanhávamos à direita passou para o lado oposto do asfalto. Seguimos por esse trecho fácil até chegarmos a uma porteira de arame do lado direito, junto ao asfalto. O caminho, agora convertido em estradinha quebra para a esquerda.

         Obviamente percebe-se que a linha devia seguir em frente, mais o mato tomou totalmente o leito. Seguimos pela estradinha à esquerda e logo chegamos a margem do riacho, o mesmo que seguíamos antes. Dali podemos ver a ponte metálica pela qual o trem o cruzava. As pontes desse ramal são todas do mesmo modelo, não tem um tabuleiro fácil de caminhar, são compostas de duas vigas longitudinais ligadas por uma treliça, sobre as vigas eram fixadas as pontas dos dormentes e sobre eles os trilhos. Como os trilhos e dormentes se foram, se quiser cruza-las tem-se que passar equilibrando-se sobre as vigas de uns 25 centímetros de largura. Francamente não tínhamos intenção e de mos exercitar na acrobacia. Portanto voltamos até a porteira de arame, cruzamo-la e tomando o asfalto para a esquerda. Logo à frente numa entrada tivemos nova visão da ponte, e pudemos ver que a vegetação crescia até sobre ela! Logo à frente em nova entrada, pulamos uma cerca e voltamos ao leito, nesse trecho novamente tomado pelo pasto alto.

         Seguimos então pelo pasto, mais logo notamos uma trilha limpa junto à cerca direita e a tomamos, aumentando a velocidade de progressão. Mais à frente a cerca se afasta do leito e a abandonamos, voltando ao pasto. À frente vemos então um bosque de eucaliptos, chegando lá pulamos outra cerca e o pasto fica mais transitável. Alcançada nova cerca, temos uma estradinha de acesso a uma fazenda. O riacho se aproxima novamente, agora a nossa esquerda. À frente o pasto está muito crescido, seguimos por ele até chegar a nova ponte metálica, mais ou menos do tamanho da outra. Novamente renunciamos ao prazer de cruza-la equilibrando-nos pelas vigas e voltamos até a estradinha.

         Tomando a estradinha para direita, cruzamos o riacho por curta ponte e chegamos a fazenda. Cruzamos os currais passando por três porteiras, as duas primeiras estavam abertas e a última fechada apenas por uma correntinha. Não vimos ninguém para pedir permissão mais o percurso deve ser usual pelos locais. Do outro lado cruzamos um riachinho por uma ponte e tomamos uma estradinha para a direita. Num instante tomamos uma trilha que saia a direita e chegamos a margem do riacho bem próximo à cabeceira da ponte ferroviária. Retomamos a trilha pelo leito e seguimos sem problemas passando por mais algumas cercas e casas. Mais à frente chegamos a um trecho encharcado que nos obrigou a abandonar o leito e tomar uma estradinha à esquerda que dava uma volta e passava por algumas casas. Assim que passamos o banhado voltamos ao leito ferroviário.

         Continuamos se maiores problemas por trecho onde a ferrovia seguia deixando o riacho à direita, com sua larga várzea nos separando do asfalto ainda mais à direita. Mais à frente uma flagrante de crime ambiental, um grupo derrubava a machadas uma árvore da mata ciliar. Não falamos nada, cumprimentamos as pessoas e seguimos em frente, não estávamos interessados em encrencas. Enfim o leito se converte em precária estradinha e por ela acabamos chegando ao perímetro urbano de Carmo de Minas. Desembocando na antiga estação, também convertida em rodoviária. Na parede ainda vemos a data da inauguração: 1891. O prédio parece ter sido recentemente pintado. A rodoviária estava fechada e não encontramos ninguém para nos confirmar o horário de volta a Cristina. Eram 15:50.

       Afinal confirmamos que o ônibus que vinha de São Lourenço e seguia para Itajubá, passando por Cristina passava pelas 17:30. Mais ou menos no horário o ônibus chegou e seguimos para Cristina, chegando de volta ao carro já noite feita. Enfim um passeio agradável de cerca de 23 KM feitos em quase 6 horas, praticamente sem pausas, sem maiores dificuldades que algum pasto alto, percorrendo um pedaço da história ferroviária de nosso país, história pouco conhecida e menos ainda contada.

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