Travessia Cobiçado-Ventania-Santo Aleixo

      Petrópolis é cercada de montanhas, muitas delas acessíveis por trilhas, o que torna a cidade bastante atraente para o trekking. Entre as caminhadas existentes há duas curtas travessias: A Cobiçado-Ventania e a Caxambu-Santo Aleixo, as quais podem ser acopladas originando um passeio para dois dias. Esse foi o nosso programa para um fim de semana de sol.
      Sai de São Paulo na sexta à noite, às 23:00, rumo a Petrópolis. Cheguei a rodoviária petropolitana às 5:40 e tomei um ônibus local rumo ao terminal central da cidade, antiga rodoviária, lá chegando às 6:30. O Rafael já estava na cidade, o esperei até por volta das 7:30, aproveitando para tomar o café da manhã numa padaria próxima.
      Quando o Rafael chegou fomos para o ponto do ônibus Santa Isabel, o qual não fica no próprio terminal, mais numa pracinha próxima. O ônibus não demorou muito a chegar, embarcamos e ele partiu rumo ao bairro do Caxambu, subindo íngreme encosta aos zigue-zagues. Quando a subida acaba, a rua passa a bordejar a encosta e logo saímos da zona urbana. Começamos então a passar por sítios e hortas. Quando tomamos o ônibus já avisamos o cobrador que desceríamos em “três pedras”, a qual fica numa rua lateral onde o ônibus nem sobe se ninguém for descer, convém avisar antes.
       O ônibus sobe até a igreja da Penha, onde descemos, e depois volta pelo mesmo caminho.Eram 8:40. Da frente da igreja já temos a primeira visão do Cobiçado, 700 metros acima.A caminhada começa subindo pela continuação da rua, rumo ao fundo do vale. O asfalto logo acaba  e é substituído por um calçamento de pedras irregulares entremeado por trechos de terra. As hortas se sucedem ao nosso redor. Quando passamos pela última casa a estradinha vira para a esquerda, contornando um muro. Em frente uma trilha segue rumo ao colo, provavelmente dando a acesso ao bairro do Morin.
       A estradinha vai subindo passando por blocos rochosos, algumas araucárias e cruzando uma rústica ponte sobre um riacho que seria o último ponto de água, mas que naquele dia estava praticamente seco. A estradinha prossegue subindo até um ponto onde faz uma curva forte para a direita e torna-se mais íngreme. Bem na curva há uma rocha  com uma aresta aguda. A esquerda da rocha sai uma trilha que entra na mata. Seguimos pela trilha. Após um trecho pela mata, a trilha sai no aberto e logo entra novamente na mata, chegando a uma vala. E preciso saltar a vala e subir íngreme encosta do outro lado, se agarrando como der até chegar ao alto, voltando ao aberto.
       A partir dai a subida é sempre pelo aberto e quase sempre com o cume do cobiçado a vista. Encontramos apenas uma bifurcação importante, onde tomamos a esquerda, inclusive há uma flecha numa rocha, parece que a direita vai fechando mais à frente.
       Pelas 11:00 chegamos ao cume do Cobiçado. O sol não dava trégua desde o início e no topo não havia nenhuma sombra. De um lado víamos a cidade de Petrópolis e vários de seus bairros. Do outro lado víamos a baixada e mal e mal a baia da Guanabara, já que a névoa seca diminuía muito a visibilidade. Víamos ainda a crista que percorreríamos até o Ventania, compreendendo o pico dos Vândalos, pedra do Diabo e Tridente. Ainda identificamos outros picos ao redor, como a Maria Comprida, Alcobaça e Castelos do Açu.
       Às 11:30 prosseguimos a caminhada, seguindo pela trilha bem marcada e começamos a descer pelo pasto, entrando na mata e descendo mais um pouco até chegamos a um colo. Tendo descido cerca de 100 metros agora subiríamos outros 180 metros. O bom é que subiríamos a maior parte por dentro da mata, à sombra. Quando a mata acabou faltava pouco para o topo dos Vândalos. O trecho final foi feito pelo pasto sob sol forte.
        Às  12:00 já estávamos no cume dos Vândalos, de novo sem encontrar qualquer fiapo de sombra, já estava com fome, mas resolvemos adiar o almoço até reentrarmos na mata e na sombra. A visão do entorno mudou um pouco, agora tínhamos visão da agulha do Itacolomi. À esquerda a crista seguia para a pedra do Diabo, agora bem próxima, do lado oposto outra crista seguia para o pico da Lagoinha, repleto de antenas. As costas víamos o vale do Caxambu desce o seu fundo.
        Uns 10 minutos depois seguimos em frente. A trilha quebra para a esquerda seguindo pela borda da crista, passando por algumas lajes. Quando a trilha reentra na mata perto da base da pedra do Diabo paramos para o lanche a sombra. Nessa altura já dava para ver que iríamos passar sede, já tinha consumido mais de um terço da água, o sol estava castigando e não havia perspectiva de reabastecimento naquele dia.
     Retomando a caminhada, a trilha sobe um pouco, encosta na pedra e segue beirando a base dela. Passamos por alguns degraus subindo e descendo com algum grau de dificuldade. Quando a pedra acaba chegamos a uma bifurcação. Ali largamos as mochilas e seguimos para a direita até o alto da pedra do Diabo. Dali tínhamos vista parecida a do pico dos Vândalos.Após uns 10 minutos de contemplação voltamos as mochilas.
        Seguindo em frente, a trilha mergulha na mata, agora um pouco mais fechada, entremeada de bambus. Vamos subindo lentamente o Tridente. A trilha encosta na borda esquerda dele, passando bem na beirada diversas vezes, é preciso cuidado nestes trechos. Quando damos de frente com um bloco rochoso, paramos para um pequeno descanso a sombra, consumindo mais um pouco de nossas parcas reservas de água. Continuando, subimos um curto trepa-pedra e dai prosseguimos pela mata. Quando a mata abria, já víamos o Ventania e os campos que o antecedem, agora é só descer o Tridente e desembocar na crista de pasto.
        A descida do Tridente é a pior parte da travessia. Descida íngreme e escorregadia, repleta de bambuzais. É preciso descer se agarrando na vegetação e, às vezes, escorregando de bunda, tal a quantidade de bambus encobrindo a trilha. Na parte final deste trecho, a trilha fica um pouco confusa pelos vários bambus caídos. Nos confundimos um pouco, mas acabamos encontrando a trilha correta, subindo levemente à esquerda. A trilha que
desce fortemente a direita leva a pedra do Inferno, passeio lateral que estava fora do nosso roteiro.
       Num instante a trilha sai no aberto e segue por uma crista de pasto na direção do Ventania e sua dupla de torres de alta tensão num dos trechos mais agradáveis da travessia. Chegamos ao Ventania às 16:00. Abrigamos-nos na sombra de algumas pequenas árvores para resolver o que fazer. Tínhamos pouca água e a boca extremamente seca. Resolvemos explorar o cume noroeste e depois descer a trilha para Santo Aleixo, já que sabíamos que havia um riacho cerca de uma hora abaixo.De qualquer forma pusemos de lado a idéia original de acampar no topo do Ventania.
        Deixamos as mochilas por ali e tomamos a trilha para a esquerda, subimos levemente e tomamos a trilha à direita numa bifurcação próxima. Seguindo por essa trilha até o final, em 5 minutos chegamos ao cume noroeste de onde tínhamos bonita vista do vale do Caxambu e das cristas ao redor.
        As 16:30, retornamos às mochilas e seguimos na direção oposta, passando pelas duas torres e numa bifurcação logo depois, tomamos a direita. O ramo esquerdo dava acesso a outro mirante que infelizmente não tivemos tempo de visitar. A trilha desce rapidamente, passando por outra dupla de torres e seguia descendo primeiro pelo pasto e depois entrando na mata de encosta.
        Com cerca de meia hora de descida fomos surpreendidos por uma bica na encosta esquerda. Água!! A primeira que encontramos desde o início do dia. Bebemos até nos fartar e aproveitei para encher os cantis. Continuamos a descer e em mais de uma hora após o início da descida finalmente cruzamos um bonito riacho. Ainda tinha a boca seca e tomei mais alguns goles neste riacho. Cruzando pelas pedras, a trilha segue paralela a ele, praticamente plana. Passamos por baixo de um largo tronco caído e em mais um pouco
chegamos a um largo com frondosa árvore ao centro. Havia espaço para várias barracas e ali nos instalamos para a noite. Já vinha escurecendo e após armar a barraca e mastigar uns sanduíches, mergulhei em meu saco e dormi como um bebe.
       No dia seguinte acordamos às 7:00, o sol já ia alto e céu totalmente azul, mas no acampamento nem dava para perceber tal a espessura do dossel sobre nós. Tomamos o café, voltei ao riacho para encher os cantis, tinha tomado boa parte da água deles durante a noite, e após desmontar as barracas e arrumar as mochilas, partimos por volta das 8:15.
       A trilha começa a subir suavemente e logo sai no descampado. Continuamos a subir pelo pasto alto em direção a uma garganta, conhecida como garganta das três torres.
       Chegando as três torres, uma das quais fora de uso, donde teríamos bonita vista da baixada, porém nesse dia espesso cobertor de nuvens estendia-se abaixo de nós, em imagem também muito bonita mas cortando qualquer visão da baixada. À frente a encosta caia íngreme. À esquerda a forma cônica do pico maior de Magé destacava-se
no horizonte.
       A partir dai a trilha virava para a esquerda e entrava na mata. Começava então o trecho mais difícil, descendo aos zigue-zagues pela mata, em grande parte composta de bambuzais. A declividade em geral não é grande, mas em alguns pontos formavam-se degraus no caminho, num dos quais, descendo, foi preciso se balançar agarrado apenas na vegetação, visto que a terra fofa não dava apoio nenhum.  Não demorou muito e cruzamos um riacho e pudemos reabastecer os cantis, visto que o calor do dia anterior prosseguia
neste também.  A descida até que não foi tão complicada como prevíamos e dos tão temidos taquaruçus só vi um ou outro caído e seco. Durante a descida porem degraus escorregadios e bambus enroscados na mochila sucedem-se com certa freqüência.

       Quase no final deste trecho numa bifurcação, tomei a direita equivocadamente e a trilha, após um trecho plano, começou a subir novamente. Opa! Caminho errado. Voltamos a bifurcação e seguimos descendo. Logo a trilha fica plana e um riacho aparece à direita. Paramos para um descanso e para encher os cantis. Na seqüência a trilha cruza o mesmo riacho e sai no descampado. Voltamos a ver as torres de alta tensão e olhando para trás vemos a garganta onde começa a descida e a íngreme encosta que descemos. Continuando pela trilha, este logo reentra na mata e segue descendo agradavelmente, agora mais suavemente por trilha bem aberta. Três riachos são cruzados até que chegamos a novo entroncamento, onde seguimos descendo. Mais um pouco e surge uma cerca de arame. Depois uma primeira casa entre as arvores à direita da trilha.

        Enfim a trilha se converte em precária estrada. Passamos por uma simpática casa de pau-a-pique do lado esquerdo e seguimos descendo.

        Num ponto onde há uma saída à esquerda, pulamos a cerca a direita, tomando uma trilha que desce pela mata até alcançar um riacho. Ali fica a pegada do gigante, grande laje de pedra onde um poço com o formato aproximado de um pé gigante é a principal atração dentre outros poços.

         Voltando a estradinha e continuando a descer, passando por dentro do semi-abandonado clube dos sub-oficiais da aeronáutica. Logo após, numa saída à esquerda, temos a entrada da pousada El nagual, onde fomos para conhecer a bonita pousada e seus simpáticos donos. Acabamos convidados a tomar um banho em um poço logo atrás da pousada. Sugestão por mim prontamente aceita. A água estava realmente deliciosa.

          Restava-nos apenas continuar descendo pela estrada que mais a frente torna-se asfaltada. A casas começam a se suceder e enfim entramos na área urbana de Santo Aleixo. Ao chegarmos a esquina em frente ao sindicato dos têxteis já era quase 14:15. Ai foi esperar o ônibus para Piabetá, o que deve ter demorado no máximo 15 minutos.

          De Piabetá, tomei um ônibus para o Rio. O Rafael voltou para Petrópolis. Às 16:30 já estava na rodoviária do Rio, conseguindo lugar num ônibus às 17:35 que me deixou no Tiête às 0:00 ainda a tempo de pegar o metrô aberto.

          Sem dúvida essa é mais uma caminhada que vale a pena fazer, apesar de Petrópolis ficar um pouco longe de São Paulo e um passeio dos mais interessante que já fiz.

Marcadores: caxambu, cobiçado, santo aleixo, ventania

2 ideias sobre “Travessia Cobiçado-Ventania-Santo Aleixo

  1. Matheus Brito

    Belo texto !! Ventania é como uma segunda casa pra mim e meu grupo, um dia resolvemos explorar essa descida até Sto Aleixo, porém ao chegar nessas 3 antenas, a trilha pareceu acabar. Vasculhamos por cerca de 40 minutos todo o local e não conseguimos continuidade, inclusive, na direção frontal após a antena desativada, parecida uma dura queda. Optamos por retornar ao Ventania e ficar mais uma noite. Fizemos isso em Abril desse ano. Teria alguma dica mais detalhada a partir desse ponto? Gostaria de completar essa missão inacabada rs
    Obrigado !!

    Resposta

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