Relato: Travessia Rebouças-Mauá via Rancho Caído

       Já havíamos marcado de fazer a clássica travessia Rebouças-Mauá no ano passado, e depois cancelado devido ao mau tempo, porém nãohavia desistido de fazê-la. Apenas aguardávamos o momento oportuno de caminhar nessa trilha por longo tempo mantida proibida pela direção do parque do Itatiaia.

       Agora iríamos concretizar nosso intento. E assim na última sexta, tomamos o ônibus das 23:30 da Cometa, rumo a Itanhandu, eu, Rodrigo, Amarildo, Gibson e Rafael. Após pormos a conversa em dia, encerramos o colóquio e tentamos dormitar um pouco. Chegamos em Itanhandu por volta das 4:00. Havíamos marcado com o Sr. Amarildo de Itamonte para que nos pegasse na rodoviária de Itanhandu às 5:00. Assim esperamos por ele no frio da madrugada. Às 4:45 eis que a Kombi encosta e rapidamente seguimos nela rumo a Itamonte, onde paramos numa padaria, ainda fechada, até que abrisse para tomarmos o café da manhã. Após o qual seguimos, já com o dia claro, rumo a portaria do parque, aonde chegamos às 7:30.

       O termômetro na portaria marcava 5° C, e isso já com o sol espiando por sobre as montanhas! Preenchemos a ficha, pagamos a taxa e após os últimos ajustes nas mochilas, iniciamos a caminhada pela esburacada estrada até o abrigo Rebouças.

       Chegando ao abrigo, já sob o sol, fizemos ultima parada para tirar os agasalhos, ir ao banheiro e completar os cantis antes de iniciarmos a trilha propriamente dita. Passando ao lado do abrigo e cruzando a represa, pulando sobre as pedras, entramos na trilha que leva ao Agulhas Negras. Após alguns curtos sobes e desces, passamos por uma ponte pênsil, chegamos a uma bifurcação, sinalizada por placa, que indica Agulhas a frente, pedra do Altar e cachoeira do Aiuruoca à esquerda. Tomamos então à esquerda, subindo, e poucos metros à frente, deixamos nova saída à direita, agora sem placa, a qual leva a Asa de Hermes.

        Vamos subindo enquanto observamos o imponente maciço do Agulhas Negras à nossa direita, onde podíamos inclusive, observar inúmeros excursionistas subindo. Quando ganhamos alguma altura pudemos avistar a Asa de Hermes encarapitada sobre maciço logo à esquerda do maciço do Agulhas, separado desse por profunda endentação. A trilha vai voltando em direção quase paralela a da estradinha e acabamos avistando a torre de Furnas que se situa próxima à portaria do parque. Quando a trilha nivela, encontramos uma bifurcação cujo ramo direito leva a pedra do Altar, já avistada daquele lado. Fizemos pequena parada para que o Amarildo passasse uma fita na sua bota que começava a se abrir, dando sinais inequívocos de extenso e exigente uso.

        Prosseguindo a caminhada, a trilha começa a descer e passamos então por baixo da pedra do Altar. Descendo mais entramos então no vale do Aiuruoca e chegando ao fundo, passamos a bordejá-lo pela esquerda. Descortina-se então a nossa frente a visão dos Ovos da Galinha, conjunto de matacões sobranceiros a uma crista rochosa e a direita destes, a Pedra do Sino de Itatiaia cujo nome faz menção a ligeira forma sinuosial da montanha.

        Saltamos um primeiro riacho, um dos formadores do rio Aiuruoca e mais à frente o próprio Aiuruoca, nessa altura, quase em sua nascente, mero riacho que pulamos de um salto. Tomando a trilha do lado oposto, quebramos a esquerda e descendo o rio. Em pouco chegamos ao alto da cachoeira do Aiuruoca. Sendo 12:00, paramos para o almoço. Após o lanche, passando para o outro lado por cima das pedras e tomamos a trilha que, de forma íngreme, desce a base da cachoeira. Sentamos a beira do límpido e, nesse dia frigidíssimo poço, e ao sol que preenchia o azul céu, relaxamos por algum tempo a anos-luz das preocupações do dia-a-dia.

        Enfim ainda faltava chão para o ponto previsto para acampamento, de modo que às 12:50 subimos para o alto da cachoeira. O Rafael resolveu explorar o outro lado, em busca da trilha variante que constitui a travessia Rebouças-Mauá via Serra Negra e a encontrou subindo um pouco a encosta do outro lado por trecho pouco marcado. Enquanto esperamos por ele, outro grupo chegou à cachoeira, grupo que depois chegaria ao Rancho Caído antes de nós, ocupando o melhor local de acampamento.

        Com o retorno do Rafael, prosseguimos a caminhada. Voltando por onde viemos até o ponto de cruzamento do rio, seguimos pela mesma margem, deixando os Ovos da Galinha à direita. A trilha inicialmente segue em nível, para depois começar a subir suavemente. Na seqüência a trilha vai virando para a direita e acaba passando por trás dos Ovos da Galinha, deflete para esquerda e continua a subir rumo a um selado. Passado o selado, a paisagem se abre e temos larga vista, que inclui à direita, os picos Maromba e Marombinha, um pouco à esquerda destes e mais longe, a Pedra Selada. Bem mais à esquerda e ao fundo a crista da Serra do Papagaio com suas inconfundíveis três corcovas. À direita desta e também ao fundo, acredito identificar também a Mitra do Bispo. E é claro, as nossas costas, a face leste do maciço do Agulhas, ladeada pela Asa de Hermes. Abaixo à direita, o vale do alto rio Preto que depois formará a divisa RJ/MG, atravessando as vilas de Maromba, Maringá e Mauá. O lugar seria ótimo lugar para acampamento, com sua esplendida vista, mais ainda era cedo, e pretendíamos avançar mais.

       Seguimos então pela trilha, descendo por um amplo zigue-zague, para depois seguir bordejando por um tempo, antes de voltar a descer até o fundo do vale. Saltamos de pulo o rio preto, que nesse ponto era ainda menor que o Aiuruoca. Paramos um pouco para reabastecer os cantis nas suas frias águas.

       Continuando a caminhada, a trilha começa a subir suavemente, passa por pequeno charco, e ao atingir o alto de um morro ornado de mata, passa por uma clareira que pode servir de ponto de camping. Cruzado o alto, voltamos a descer agora por dentro de bambuzais, primeiro trecho fechado desde o inicio da caminhada. Alguns degraus escorregadios são superados e saímos novamente no aberto, e em mais um pouco estamos no fundo de novo vale, onde dois riachos são cruzados em sucessão. Já avistamos na encosta do outro lado, próximo a algumas araucárias, o local do antigo e desaparecido, Rancho caído.

        Portanto, após o segundo riacho, subimos a encosta e chegando a clareira de acampamento, à esquerda, próximo a alguns matacões. Conforme já dito o local já estava ocupado por outro grupo, o qual já se ocupava em acender seus cigarros “não convencionais” e em se banhar pelados no riacho próximo. Nem cogitamos em ficar por ali em tão espalhafatosa companhia. Seguimos pela trilha, subindo a encosta, passando por pequeno charco e enfim, quando a trilha vira para a esquerda e nivela, encontramos pequena área de acampamento, à direita da trilha. Ainda investigamos se haveria local melhor um pouco à frente, mas o Amarildo confirmou que não. De modo que Ainda pelas 16:00 e pouco, encostamos por ali mesmo. Montamos as barracas, e procuramos subir nas rochas próximas para apreciar o por do sol, o qual aconteceu ainda cedo para nós, como conseqüência das altas cristas ao nosso redor. Os demais se reuniram para cozinhar, mas como tinha optado por levar apenas lanche frio, comi meus sanduíches já dentro da barraca, apenas observado o cozinhar dos demais pela porta entreaberta de minha barraca. Pelas 18:20, o sono me obrigou a me recolher ainda antes que o jantar deles acabasse.

        Acordei no dia seguinte, pouco depois das 6:00, mas fiquei enrolando dentro da barraca. Durante a noite, cheguei a ver o termômetro marcar 2.9 ° C, mas quase não ventou e não tive passei frio. Tomei o café dentro da barraca e, pelas 7:00, todos nos levantamos. Enquanto os demais preparavam seus cafés quentes, subi na encosta à esquerda do acampamento, onde um curioso conjunto de rochas se equilibrava como se postas umas sobre as outras como blocos de brinquedo. Do topo do rochoso voltei a ter a visão da face leste do Agulhas e do lado direito, do pico do Papagaio. Descendo ao acampamento, desarmamos as barracas e guardamos tudo dentro das mochilas. O acampamento estava à altitude de cerca de 2300 metros e vamos ao fim descer a Maringá que está por volta de 1100 metros.

         Reiniciamos a caminha às 8:45. A trilha inicialmente desce, cruza um cinturão de mata, onde corre um riacho, e volta a subir, ainda dentro da mata. Depois continua a subir, agora pelo campo, até atingir uma crista. Dali a visão novamente se alarga. Tanto atrás, do Agulhas, como para frente, dando vista da Pedra Selada, das vilas de Mauá e Maringá e das morraria ao norte delas.

         Começa então a descida conhecida como “mata cavalo”. O nome impressiona mais que a própria trilha que desce até que suavemente, em largos zigue-zagues. No principio pelos campos de altitude, depois a vegetação vai ficando cada vez mais alta, até entrarmos na mata.  Logo que entramos na mata, surge uma bifurcação, mas a esquerda dá acesso apenas a uma área de acampamento. Tomamos então à direita e, em pouco, cruzamos um riacho. Pausa para encher os cantis.

         A trilha prossegue descendo por dentro da mata, e fora um ou outro bambu caído não apresenta qualquer dificuldade. Passamos por outro riacho, saltando de pedra em pedra. Ao chegar a um terceiro riacho, atravessado por estreita pinguela, já estamos chegando ao final da trilha. Em pouco chegamos a uma bifurcação. À esquerda leva a uma pequena queda naquele último riacho. À direita, em mais um pouco, após uma porteira, desemboca no final da estrada do vale das Cruzes. A trilha acabou, agora é seguir pela estrada por mais 3,5 km, serpenteando entre bonitas casas de veraneio, quase sempre descendo, até desembocar pelas 13:30 na estrada que liga Mauá a Maringá.

         Ali nos separamos do Rafael, que tinha pressa em voltar a São Paulo, e por isso seguiu para a direita, rumo a Mauá, esperando tomar um ônibus que se supunha sairia dali à 15:00, rumo a Resende. Na verdade a informação estava desatualizada e ele acabou se safando com uma providencial carona que o trouxe direto a São Paulo. O restante de nós seguiu para a esquerda, rumo a Maringá, aonde chegamos em mais uns 20 e poucos minutos, e logo aboletamos no restaurante “Cozinha Mineira”, onde saboreamos uma truta assada acompanhada de cerveja gelada, sem esquecer a sobremesa e o café para arrematar. Saímos dali pouco antes das 16:45, para nos dirigir ao ponto de ônibus, quase em frente. Ali tomamos o ônibus para Resende. Para nossa infelicidade o mesmo estava cheio e fomos sacolejando em pé até Resende. A única noticia boa nesse fim de jornada é que a descida da serra já está asfaltada, diminuindo um pouco o desconforto da viagem.

          Chegando a rodoviária de Resende, nem esquentamos banco, imediatamente embarcamos no ônibus para São Paulo, que saia as 18:30, chegando ao Tiête por volta das 22:00.

2 ideias sobre “Relato: Travessia Rebouças-Mauá via Rancho Caído

  1. Sandro Rodrigues

    Belo relato, parabéns. Tenho interesse em realizar esta travessia. Você esteve lá agora, em 2016? Outra coisa, teria como repassar o contato do senhor Amarildo? Essa logística de transporte tem complicado um pouco, rs. Desde já agradeço a atenção.

    Resposta

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